cultura digital
04 AGO 2026 Upixel

Quem viveu sabe o que é isso...

Sexta-feira.

Hora de correr para a locadora e garantir as estreias do fim de semana.

Eu sei.

Lá vem mais um texto nostálgico sobre como tudo era melhor antigamente.

Calma.

Não é sobre isso.

O ritual

Quem viveu essa época lembra do ritual.

Entrar na locadora, passear pelos corredores, olhar as capas, ler as sinopses e encontrar o dono ou funcionário que já conhecia seus gostos.

"Brunão, chegou um filme que você vai gostar."

Pronto.

A conversa começava.

Falávamos sobre o último filme assistido, cenas marcantes, curiosidades, atores, diretores e teorias.

Às vezes a conversa durava mais do que o próprio filme.

E quando finalmente levávamos a fita ou o DVD para casa, a experiência continuava.

Era sessão pipoca com a família inteira.

Todo mundo assistia junto.

"Mas hoje é melhor."

E eu concordo.

Netflix, Prime Video, HBO e tantos outros serviços colocaram um catálogo gigantesco na palma da nossa mão.

Nunca foi tão fácil assistir a qualquer coisa.

Só que existe um detalhe curioso.

Temos tantas opções que frequentemente passamos mais tempo procurando o que assistir do que assistindo.

E é exatamente aqui que eu queria chegar.

Recomendação não é conversa

Hoje, quase tudo é baseado em dados.

A plataforma recomenda um filme porque pessoas parecidas com você assistiram.

O Google resume a história em poucos segundos.

Um algoritmo calcula suas preferências e tenta prever seus próximos passos.

Funciona.

Mas existe uma diferença entre uma recomendação e uma conversa.

O algoritmo pode me dizer sobre o que é um filme.

O dono da locadora podia me dizer por que aquele filme era especial.

O algoritmo conhece meu histórico.

O dono da locadora conhecia minhas histórias.

O atrito que a gente elimina

No mundo do UX, falamos muito sobre remover atritos, acelerar jornadas e otimizar fluxos.

E faz sentido.

Ninguém sente saudade de rebobinar fita VHS.

Mas, às vezes, na busca por eficiência, eliminamos também os momentos de descoberta, conversa e conexão.

Talvez a maior perda não tenha sido a locadora.

Talvez tenha sido o encontro.

E se as locadoras voltassem?

E é por isso que eu não acho tão absurdo imaginar que, em algum momento, as locadoras voltem.

Não como eram antes.

Mas com um novo propósito.

Imagine um espaço inspirado nas antigas locadoras.

Prateleiras cheias de filmes, pôsteres nas paredes, áreas de convivência, café, bar, debates, indicações de pessoas reais e não apenas de algoritmos.

Um lugar para conversar sobre cinema.

Um lugar para conhecer gente.

Um lugar para transformar entretenimento em experiência novamente.

"Parece loucura."

Talvez.

Mas também parecia loucura imaginar que os discos de vinil voltariam a vender milhões de unidades.

Parecia loucura imaginar que as barbearias deixariam de ser apenas um lugar para cortar cabelo e se transformariam em pontos de encontro.

Parecia loucura imaginar que produtos considerados ultrapassados ganhariam valor justamente por aquilo que a tecnologia não consegue reproduzir: a sensação.

O mundo é cíclico

As tecnologias evoluem.

Os hábitos mudam.

Mas uma coisa continua igual.

As pessoas ainda procuram outras pessoas.

Talvez o futuro não seja apenas digital.

Talvez o futuro seja encontrar novas formas de resgatar aquilo que perdemos enquanto tornávamos tudo mais eficiente.

E, quem sabe, em alguma esquina do futuro, exista uma antiga locadora cheia de gente conversando sobre filmes.

Não porque precisem dela.

Mas porque sentem falta do que ela representava.

Não clique em compartilhe

É exatamente isso que o algoritmo espera.

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