Cultura Digital
11 SET 2026 Upixel

Gastrite Cibernética do Scroll Infinito

No mundo da sua tela, onde é possível cancelar, farmar aura, seguir influencers, celebridades, idolatrar marcas, políticos, pessoas, ideias e transformar a opinião de um Zé-Rosquinha qualquer em verdade absoluta, estamos nós, nesse purgatório chamado scroll.

Fico pensando: o que seria um influencer para seus pais, seus avós, seus bisavós? E vamos mais longe: o que era um influencer duzentos anos atrás? Não me refiro à Europa e seu gigantesco monopólio artístico, cheio de gente que já virou estátua, quadro, livro e nome de avenida. Estou falando do mundo real mesmo. Das pessoas normais. Do sujeito que acordava, trabalhava, comia, reclamava da vida e ia dormir. O que essas pessoas seguiam como tendência? O que era moda? Quem elas admiravam? Quem era o Zé-Rosquinha da época falando merda na praça e fazendo todo mundo acreditar? Seguiam apenas o trabalho? A família? A religião? O sujeito mais rico da cidade? O cara que tinha uma carruagem mais bonita? E os rebeldes? Os haters daquela época? Será que existiam?

Perguntas escabrosas para as quais eu não sei a resposta, mas que gosto de imaginar. Fico pensando que gostaria de poder me sentar com meu avô, se ele ainda estivesse vivo. Tanto o materno quanto o paterno. Sentar e perguntar essas coisas. Não sobre grandes acontecimentos históricos, guerras ou presidentes. Queria saber como era simplesmente viver. O que fazia alguém ser admirado? O que fazia alguém ser odiado? Qual era a fofoca? Quem era o idiota da cidade? O que fazia uma pessoa pensar: "caralho, queria ser igual a esse sujeito"?

Acho que dá para fazer um comparativo entre as gerações. Olhar para onde saímos, olhar para onde chegamos e tentar entender se realmente evoluímos. Porque, às vezes, olhando ao redor, parece que fizemos um puta esforço para chegar até aqui e, no caminho, esquecemos alguma coisa importante.

Foi mais ou menos nesse pensamento que eu me encontrava sentado numa sala de recepção, esperando minha consulta médica e rezando fervorosamente para que o médico não me sugerisse uma colonoscopia. Enquanto esperava, fiquei observando as pessoas. Tenho esse hábito de prestar atenção no mundo quando não tenho nada para fazer. Isso acontece porque não tenho feed de porra nenhuma no celular. Então observo todo mundo. Até os idosos, que poderiam ser meus avós, estavam grudados naquela tela maldita. Os mais velhos, frequentemente mergulhados em fake news sobre medicamentos milagrosos, doenças misteriosas e alguma coisa que "os médicos não querem que você saiba". Os mais novos, na minha cabeça, provavelmente estavam tirando foto de alguém para transformar em figurinha. E os da minha idade? Esses estavam olhando alguém viajando para uma praia paradisíaca, imaginando que algum dia conseguiriam voltar para Ubatuba.

Enfim. A sociedade e cada um de seus momentos. Cada geração com sua própria maneira de olhar para o mundo, de admirar alguém, de invejar alguém, de odiar alguém e, aparentemente, de perder algumas horas por dia olhando para uma tela. E é aí que está nossa gastrite. Não necessariamente no estômago. É essa necessidade permanente de consumir alguma coisa. Uma opinião. Uma notícia. Um vídeo. Uma vida que não é a nossa. Uma pessoa que nunca conhecemos. Uma discussão que não nos diz respeito. Uma tendência que vai durar três dias. Uma pessoa dizendo como devemos pensar, comer, trabalhar, investir, amar, criar nossos filhos, decorar nossa casa, escolher nossa profissão e, principalmente, como devemos nos sentir.

E nós seguimos. Scroll. Scroll. Scroll. Até que o algoritmo nos convença de que precisamos de alguma coisa que, cinco minutos antes, sequer sabíamos que existia.

Quando finalmente entrei no consultório, vieram as conversas padrão. O que me trouxe até aqui? O que estou sentindo? Há quanto tempo? Algum histórico? Aquelas perguntas que fazem parte do ritual. E então me lembrei de uma coisa curiosa. Nossos ancestrais provavelmente enfrentavam situações que fariam qualquer coach moderno pedir demissão. Caçar. Fugir. Frio. Fome. Doença. Trabalho físico. Nenhum botão de "pular anúncio". Nenhuma entrega em quinze minutos. Nenhum aplicativo avisando que alguém curtiu uma foto.

E eu ali. Com medo de uma colonoscopia. Claro que, além da colonoscopia, levei de brinde uma endoscopia. Ué. Se você tem dois buracos, vamos colocar tubos nos dois. Enfim. A vida.

E essa é a parte mais engraçada de tudo. A gente evoluiu o suficiente para não precisar mais fugir de um animal selvagem para sobreviver à tarde, mas desenvolveu uma ansiedade desgraçada porque alguém que nunca vimos na vida discordou da nossa opinião na internet. Trocamos o medo do predador pelo medo do comentário. A fogueira virou feed. A aldeia virou rede social. O fofoqueiro virou influencer. E a opinião do sujeito da esquina ganhou algoritmo, iluminação profissional e três milhões de seguidores.

Essa é a verdadeira gastrite cibernética. Não sei. Também não sei se evoluímos. Apenas trocamos os problemas. E seguimos procurando alguma coisa. Alguma resposta. Alguma validação. Alguma pessoa para admirar. Alguma coisa para odiar. Algum lugar para chegar. Algum sentido para tudo isso.

Eu, pelo menos, continuo procurando. Só ainda não descobri exatamente o que estou procurando. E, aparentemente, enquanto não descubro, vou pagando o preço. Inclusive em parcelas. E com preparo intestinal.

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É exatamente isso que o algoritmo espera.

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