Cultura Digital
13 SET 2026 Upixel

O Celular que te Dobrou

Parem tudo, parem o mundo, parem o universo, parem a galáxia... A Apple lança mais um produto inovador. Opa, peraí? Inovador? Os celulares do início do milênio já não eram dobráveis? Sempre me esqueço que o mundo é cíclico, que o design das coisas também é cíclico.

Antes que alguém chame isso de inovação: não é nem a pau. Os celulares dobráveis eram tão charmosos quanto aqueles isqueiros Zippo, tendência da época, objeto que você tirava do bolso com aquela cara de quem tinha acabado de descobrir o futuro. Então não me venha com chorumelas achando que dobrar um celular é a reinvenção da roda. Isso já existia. E, sinceramente, funcionava.

Enfim, do pouco que vi, confesso que achei o design muito interessante. Acho os modelos atuais todos muito parecidos fisicamente. Mudam uma câmera, arredondam uma quina, diminuem dois milímetros, aumentam a tela, inventam um nome pomposo para alguma tecnologia e pronto: temos uma nova revolução. Nesse sentido, o dobrável pelo menos muda a forma do objeto e quebra um pouco essa mesmice do retângulo preto que carregamos no bolso.

Mas tenho minhas ressalvas com a marca. Preço, venda casada, falta de acessórios, mudanças nos cabos e conectores dos dispositivos a cada atualização...

A cada lançamento da Apple, “a marca mais amada” pelos hipsters, influencers e pessoas de muita importância nesse mundo rodeado por bilhões de estrelas e galáxias, eu fico imaginando quando eu, um mero hippie digital que ainda escreve em um blog para quase ninguém, terei coragem de pagar o preço de uma S10 2008 em um iPhone.

Desculpem os entusiastas (se é que algum deles está aqui), mas NÃO VALE. Com o preço desse iPhone, você consegue viajar para um lugar paradisíaco, comprar aquele PC maravilhoso que você está namorando há meses, reformar alguma coisa em casa, comprar um monte de livros, comer uma quantidade irresponsável de pizza ou simplesmente fazer alguma coisa que não envolva passar o dedo para cima na tela enquanto assiste a vídeos de quinze segundos no TikTok.

Claro, pode ser que eu esteja enganado. Talvez esse aparelho tenha alguma função secreta que ajude você a ficar milionário investindo na bolsa, produzindo vídeos para o YouTube ou descobrindo petróleo enquanto espera o ônibus. Tampouco acredito nisso. Acredito que o mercado é selvagem e que muita gente que paga esse preço provavelmente não deveria estar pagando.

E aqui entra uma das coisas que mais me incomodam na Apple: eles conseguem criar alguma coisa com um design irresistível e, principalmente, conseguem convencer as pessoas de que aquilo é extremamente necessário. Não necessariamente porque inventaram alguma coisa nova, mas porque sabem apresentar aquilo de uma maneira tão convincente que parece que você estava vivendo errado até aquele momento.

O dobrável é um ótimo exemplo. Ele já foi útil décadas atrás. Depois foi abandonado, voltou em outras marcas, ganhou telas melhores, ficou mais sofisticado e agora chegou à Apple.

A empresa pega uma ideia que já existia, coloca dentro de um ecossistema extremamente bem amarrado, dá uma polida no design, coloca uma trilha sonora épica, um fundo preto, um executivo sorrindo e algumas palavras como “experiência”, “revolucionário” e “nunca antes feito”, e pronto: nasceu uma nova era.

E eu nem acho isso necessariamente ruim. O problema é chamar tudo de inovação. Inovação virou uma palavra tão prostituída que daqui a pouco mudar a posição do botão de volume vai ser uma revolução na experiência humana.

Pelo menos, dessa vez, eles fizeram alguma coisa diferente. É melhor do que simplesmente trocar a cor, diminuir um pouco a espessura, colocar uma câmera nova e vender como se tivéssemos acabado de descobrir o fogo.

No fim das contas, talvez esse seja o verdadeiro talento da Apple: não necessariamente inventar o futuro, mas convencer todo mundo de que o futuro começou exatamente no dia em que ela resolveu vendê-lo.

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É exatamente isso que o algoritmo espera.

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