Cultura Digital
09 SET 2026 Upixel

A banalização do que é sério: caneta emagrecedora, influencers e o UX da vida real

Não sou muito de acompanhar redes sociais, muito menos influencers. Se eu encontrar algum na rua, provavelmente vou passar reto sem fazer a menor ideia de quem seja. Não é muito difícil encontrar gente metida a tal. Uns dias atrás, tive o desprazer de presenciar duas jovens gravando conteúdo dentro de um supermercado. Faziam uma dancinha enquanto pegavam frutas. Confesso que me senti profundamente constrangido. Tive vontade de mudar de planeta. Como isso não era uma possibilidade muito prática naquele momento, deixei a raiva de lado e resolvi mudar de corredor. Larga mão de alimento saudável por hoje. Fui para os salgadinhos e para o refrigerante, que pelo menos me deixam genuinamente feliz.

Na verdade, lembrei de uma frase que minha mãe dizia carinhosamente quando alguém estava se esforçando demais para chamar atenção: “Quer se aparecer? Pinta o cu de vermelho.”

É aqui que as coisas se conectam, a ridicularização e a banalização do que deveria ser tratado com alguma seriedade.

Tenho visto cada vez mais gente falando sobre uma tal “caneta emagrecedora”. Puta papinho chato do caramba e falam como se fosse um novo sabor de refrigerante. “Tomou?”, “Quanto perdeu?”, “Qual você está usando?”, “Comecei semana passada.” E pronto. Um assunto que envolve medicamento, indicação, acompanhamento, efeitos colaterais, contraindicações e uma série de outras questões vira conversa de corredor, tendência de internet e, em alguns casos, quase uma competição.

Não sou médico. Não sou pesquisador. E não tenho a menor pretensão de explicar aqui se determinado medicamento é bom, ruim, seguro ou perigoso. Mas existe uma coisa que me incomoda: a facilidade com que transformamos coisas complexas em coisas simples demais. É como se a existência de uma solução rápida automaticamente transformasse o problema em algo simples.

Está acima do peso? Toma a caneta. Está ansioso? Toma alguma coisa. Está triste? Compra alguma coisa. Não sabe fazer? Paga alguém. Não sabe pensar? Pergunta para a IA. Não sabe o que está acontecendo? Abre o Instagram.

Talvez o problema nem esteja nas ferramentas. Talvez esteja na maneira como começamos a enxergá-las.

E existe uma ironia ainda maior nisso tudo. Já vi pessoas comemorando o fato de terem recusado a vacina contra a Covid e, ao mesmo tempo, falando tranquilamente sobre medicamentos para emagrecer como se não houvesse nenhuma questão médica envolvida. Não estou aqui para discutir vacina. Nem caneta. Nem medicina. A questão é outra: por que algumas coisas exigem desconfiança, pesquisa e cautela, enquanto outras são aceitas com a mesma naturalidade com que se compra um pacote de biscoito?

E o problema não esta nas ferramentas. Está na maneira como começamos a enxergá-las.

No fundo, talvez seja mais uma consequência dessa necessidade contemporânea de transformar tudo em conteúdo. Tudo precisa ser rápido. Tudo precisa ser fácil. Tudo precisa ser divertido. Tudo precisa caber em quinze segundos. Até aquilo que não deveria.

E talvez seja justamente aí que aconteça a banalização, quando uma coisa séria deixa de ser tratada como coisa séria e passa a ser apenas mais um assunto para comentar, compartilhar, imitar ou vender.

Não sei se isso tem alguma relação com tecnologia, UX ou design. Provavelmente tem.

A lógica do design de experiência, reduzir fricção, eliminar atrito, entregar recompensa imediata, vazou para quase tudo. A interface ideal é aquela em que o usuário não precisa pensar. O caminho mais curto entre o desejo e a satisfação vira o produto.

E é exatamente isso que começa a acontecer fora dessas telas também: problemas complexos são empacotados como soluções de um clique. A “caneta” vira o botão mágico. A ansiedade vira notificação. A solidão vira feed. Tudo precisa ser fácil, rápido e, de preferência, agradável o suficiente para não gerar resistência.

O bom UX remove dificuldades. O problema é quando a vida real começa a ser tratada como se fosse uma tecnologia e a gente passa a esperar que ela também funcione sem esforço, sem dúvida e sem conta a pagar depois.

Sempre fui desconfiado de atalhos. Tenho a impressão de que resultados rápidos demais quase sempre vêm acompanhados de alguma coisa que a propaganda convenientemente esqueceu de contar.

Na ficção científica, apertamos um botão e resolvemos tudo. Na vida real, normalmente existe uma conta.

E ela costuma chegar depois.

Não clique em compartilhe

É exatamente isso que o algoritmo espera.

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