O que Seu Madruga faria hoje para pagar o aluguel?
É indiscutível: ao longo de Chaves, Seu Madruga foi o cara que mais fugiu da CLT. Encarou praticamente qualquer trabalho que aparecesse pela frente. Foi pintor, pedreiro, marceneiro, barbeiro, sapateiro, vendedor ambulante e mais uma infinidade de profissões que dariam inveja a qualquer currículo do LinkedIn.
E tudo isso enquanto carregava uma das frases mais famosas da série:
“Não existe trabalho ruim. O ruim é ter que trabalhar.”
A frase virou quase uma filosofia popular sobre trabalho. Mas, pensando no velho Madruguinha e no novo modelo de trabalho que se espalhou pelo mundo, fica uma pergunta interessante:
O que Seu Madruga estaria fazendo hoje para pagar o aluguel?
1. Motorista de aplicativo
Seu Madruga seria um excelente motorista de aplicativo.
Conheceria todos os atalhos da cidade, teria uma história diferente para cada passageiro e provavelmente transformaria uma corrida de quinze minutos em um podcast de duas horas.
2. Entregador de mercadorias
Depois de tantos trabalhos braçais, entregar encomendas seria praticamente uma evolução natural.
Seu Madruga receberia a notificação, colocaria a mochila nas costas e sairia sob sol, chuva ou a clássica “é só ali na esquina."
No caminho, ainda daria um jeito de conversar com o porteiro, reclamar do elevador quebrado e explicar para o cliente que o atraso não foi culpa dele, e sim “do sistema”.
No fim do dia, olharia o valor recebido, faria as contas do combustível, da comida e do aluguel e concluiria, mais uma vez, que o ruim não é o trabalho. O ruim é ter que trabalhar.
3. Marido de aluguel
Aqui ele estaria em casa.
Trocar chuveiro, consertar torneira, pintar parede, instalar prateleira, mexer em porta, improvisar alguma coisa que deveria ter sido consertada há cinco anos.
Com tantas profissões acumuladas, Seu Madruga poderia criar um perfil em uma plataforma de serviços e colocar:
Especialidades: praticamente tudo.
E, pela experiência adquirida ao longo da vida, provavelmente cobraria mais barato que um profissional especializado.
4. Montador de móveis
Seu Madruga já tinha experiência com marcenaria.
Hoje, poderia viver de montar móveis comprados pela internet. A descrição do serviço seria simples:
“Montagem de móveis. Ferramentas próprias.”
O cliente entregaria uma caixa com 147 peças, 36 parafusos e um manual de 12 páginas.
Seu Madruga olharia para tudo e diria:
-Isso aí é moleza.
Quatro horas depois, sobrariam três parafusos.
5. Eletricista por demanda
Trocar tomada, instalar luminária, arrumar chuveiro, resolver um curto e descobrir por que aquela lâmpada só funciona quando alguém bate na parede.
Mais um serviço para o currículo.
Hoje, ele não precisaria mais esperar alguém aparecer na vila perguntando por um eletricista. Bastaria abrir o aplicativo.
6. Pintor por diária
Essa talvez fosse uma das profissões mais óbvias.
Seu Madruga já pintava paredes antes de existir aplicativo para contratar pintor. A diferença é que hoje ele poderia receber uma avaliação depois do serviço:
★★★★★
“Bom profissional, chegou no horário e terminou rápido.”
7. Dog walker
Seu Madruga também poderia passear com cachorros.
Seria uma espécie de profissão moderna para alguém que já passou boa parte da vida tentando fugir de problemas. O detalhe é que agora os problemas teriam quatro patas.
8. Vendedor ambulante digital
O velho vendedor ambulante também teria se adaptado. Só que o carrinho de rua provavelmente viraria um celular.
Em vez de sair pela vila oferecendo produtos, Seu Madruga estaria vendendo pelo WhatsApp, Marketplace, Instagram e sabe-se lá mais quantas plataformas.
9. Criador de conteúdo
Aqui existe uma possibilidade ainda mais interessante.
Seu Madruga poderia simplesmente transformar a própria vida em conteúdo.
“Como sobreviver sem pagar aluguel há 14 meses.”
“5 profissões para fazer dinheiro rápido.”
“O que aprendi trabalhando como pedreiro.”
“Por que não existe trabalho ruim.”
Em poucos meses, provavelmente teria mais seguidores do que muita gente que passou anos estudando marketing digital. E, ironicamente, começaria a ganhar dinheiro ensinando os outros a ganhar dinheiro.
10. Streamer
Se ele tivesse descoberto a internet cedo, talvez tivesse virado streamer.
Não necessariamente porque soubesse jogar. Mas porque Seu Madruga tinha uma habilidade que a internet valoriza bastante: saber contar histórias.
E isso, combinado com uma câmera, um microfone e algumas horas disponíveis, já virou profissão para muita gente.
11. Freelancer de tudo
No fundo, talvez essa fosse a profissão que mais combinasse com ele.
Seu Madruga não teria necessariamente uma carreira. Teria uma coleção de trabalhos.
Hoje faz uma entrega. Amanhã pinta uma parede. Depois monta um móvel. No fim de semana dirige. Na segunda-feira conserta uma torneira. Na terça-feira aparece uma oportunidade completamente diferente.
E assim vai.
O Seu Madruga já era um trabalhador de plataforma?
Seu Madruga sempre viveu de trabalhos temporários, pequenos serviços e oportunidades que apareciam conforme a necessidade. A diferença é que, naquela época, ele dependia de alguém bater na porta da vila. Hoje, ele teria um aplicativo.
E isso é uma das maiores mudanças do trabalho moderno.
O bico deixou de depender apenas da indicação da vizinhança, do dono do boteco ou do anúncio no jornal. Plataformas conseguem conectar quem precisa de um serviço com quem está disposto a realizá-lo.
Como tudo tem um porém
Os novos modelos de trabalho também são alvo de muitas críticas.
Flexibilidade pode ser autonomia mas os contratempos são seus. Ser seu próprio chefe pode ser libertador mas também pode significar muitas responsabilidades, períodos sem demanda e o risco de não ter renda suficiente.
Seria esse novo modelo a transformação do trabalho em algo cada vez mais descentralizado, fragmentado e mediado por plataformas?
E, nesse cenário, Seu Madruga talvez finalmente tivesse encontrado seu lugar?
Não precisaria escolher uma profissão. Poderia ter quinze.
Só teria que descobrir como pagar o aluguel.
E, pelo histórico do Mister Madruga, essa parte provavelmente continuaria sendo o maior problema.