Cultura Digital
14 AGO 2026 Upixel

15 momentos em que o Power BI testa a sanidade de um DataViz

O Power BI é uma das ferramentas mais usadas para visualização de dados nas empresas. Potente, consolidado e com uma comunidade enorme. Poucos concorrentes reais batem na porta.

Mas tem um detalhe.

A Microsoft nunca foi famosa por interfaces que te fazem pensar: “nossa, isso é intuitivo”. Quem lembra dos softwares dos anos 90 sabe do que eu estou falando. Quadrado, cheio de menus, opções escondidas e aquela sensação estranha de estar usando algo avançado e arcaico ao mesmo tempo.

E esse lado da Microsoft ainda existe...

O lado em que você abre o Power BI e percebe que sua profissão agora inclui negociar com uma interface que parece ter personalidade própria. Às vezes penso na quantidade de paciência que quem faz DataViz precisa ter todo dia.

Porque, quando eu uso o Power BI, o Gandhi que mora em mim entra em briga física com o Mike Tyson. E a luta não é justa.

Aqui vão 15 momentos em que o Power BI testa a sanidade de quem trabalha com visualização de dados.

1. O Ctrl+Z que entrou de férias

Você muda algo. Não gostou. Ctrl+Z.

Nada.

De novo. Nada.

Mais uma vez.

O Power BI parece precisar consultar a Biblioteca de Alexandria antes de desfazer qualquer coisa.

No Figma: Ctrl+Z e voltou.

No Power BI: “calma, cidadão, estamos processando sua solicitação”.

Você começa a questionar escolhas de vida.

2. Procurar uma configuração simples como se fosse easter egg

Você só quer mudar uma borda, rotacionar um objeto ou alterar uma propriedade.

Começa a caça:

Formatar visual → não.

Geral → não.

Visual → não.

Propriedades → talvez.

Três pontinhos → nada.

Botão direito → nada.

Depois de 14 minutos você descobre que a opção estava dentro de “Forma”. Porque, claro, “Forma” era o lugar mais óbvio do mundo.

UX 1 × Power BI 0.

Sua sanidade: –37.

3. O grid que não é exatamente um grid

Todo mundo de interface sabe a importância de margem, alinhamento e consistência. Você só quer quatro cards alinhados.

No Power BI vira brincadeira:

“Está alinhado?”

“Parece que está.”

“Não está.”

“Agora está.”

“Não está.”

Você gasta mais tempo alinhando do que pensando no que o dashboard deveria comunicar. O grid existe, mas parece ter sido feito por alguém com uma relação complicada com precisão.

4. Mover um mapa

Mover card? Ok.

Mover gráfico? Tranquilo.

Mover um mapa? Boa sorte.

Agora imagina um mapa do Brasil com dados de mais de 5 mil municípios. Você clica. Não seleciona. Clica de novo. Seleciona o mapa. Não era isso. Clica outra vez. Selecionou outra coisa.

Você começa a negociar com o mouse: “irmão, eu só preciso mover isso 12 pixels pra esquerda”.

O mapa responde: não.

5. Atualização que muda tudo

Você finalmente memorizou onde fica determinada configuração. Criou vínculo afetivo.

Aí vem uma atualização.

Botão mudou de lugar. Nome mudou. Painel mudou. Ícone mudou. Você procura durante cinco minutos algo que usava ontem.

É como voltar pra casa e descobrir que reformaram a cozinha enquanto você estava no trabalho.

6. Camadas que poderiam ser iguais às do Figma

Quem vem do Figma olha as camadas do Power BI e pensa “entendi”.

Minutos depois: “não entendi”.

Você só quer:

Imagem

Gráfico

Card

Texto

E arrastar as coisas normalmente. No Figma você faz isso quase dormindo. No Power BI abre o Painel de seleção como quem entra numa sala de controle nuclear.

E ainda aquele clássico: “por que esse negócio está atrás?”

Resposta: porque está atrás. Obrigado, Power BI.

7. A imagem que você colocou de referência

Você cola uma imagem de referência. Perfeito. Depois precisa tirar.

Clica. Nada. Clica de novo. Nada.

Porque, aparentemente, você não colocou uma imagem. Colocou um conceito metafísico chamado plano de fundo. Agora precisa entrar em outro painel, abrir outra propriedade e achar onde a criatura está escondida.

Você não está mais fazendo DataViz. Está fazendo arqueologia digital.

8. “Só quero mudar o nome da legenda”

Parece simples. Você olha “Legenda” e pensa “perfeito”.

Aí descobre que existem:

  • nome do campo
  • nome do valor
  • título da legenda
  • rótulo
  • categoria
  • série
  • medida
  • coluna
  • nome exibido no visual

Você só queria trocar “Instituição Financeira” por “Banco”. Agora está estudando a ontologia do Power BI.

9. O objeto que decide não ficar onde você colocou

Você arrasta. Ele vai. Você solta. Não ficou no lugar. Arrasta de novo. Foi longe demais. Volta. Passou.

Começa a trabalhar com números: +3 px, –7 px, +2 px, –1 px.

Nesse ponto você percebe que está fazendo UX com mecânica de Tetris.

10. O percentual que resolveu virar outra coisa

Você coloca 79%.

O Power BI mostra 0,79%.

Você: “não”.

Power BI: “sim”.

Você confere formato, casas decimais, escala, agregação… e descobre que o valor tinha que ser 0,79 e não 79.

Parabéns. Você aprendeu de novo que 0,79 é 79% depois de anos trabalhando com dados.

11. O gráfico que não quer obedecer a ordem

Você tem: Janeiro → Fevereiro → Março → Abril → Maio → Junho.

O Power BI olha e pensa: “interessante, vou ordenar alfabeticamente”.

Resultado: Abril → Fevereiro → Janeiro → Junho → Maio → Março.

Você: “mas são meses”.

Power BI: “são textos”.

A máquina não está errada. Ela só não tem a menor consideração pelo contexto humano.

12. A linha que deveria ser simples

Você quer uma linha. Só uma. Horizontal, vertical ou diagonal.

Procura rotação. Não acha. Procura propriedade. Não acha. Procura no painel de formatação. Não acha.

Começa a se perguntar se está ficando burro.

Não. Você só queria rotacionar uma linha.

13. O gráfico que ficou lindo… até os dados reais

Você passa horas ajustando espaçamento, tipografia, cores, hierarquia, rótulos, grid e composição. Ficou bonito.

Aí chega o dado real. O valor é maior. O texto quebra. O eixo muda. O rótulo encosta. A legenda ocupa mais espaço. O gráfico cresce. O card estoura.

Aquele dashboard perfeito agora parece ter sido feito por alguém que te odeia. O dado real continua sendo o maior inimigo do mockup perfeito.

14. A ferramenta que faz milhões de coisas, menos exatamente a que você precisa

O Power BI conecta fontes, cruza dados, cria medidas, modela relacionamentos e trabalha com milhões de registros. Consegue fazer coisas absurdamente complexas.

Mas você está olhando pra tela pensando: “eu só quero colocar esse negócio 10 pixels pra baixo”.

Essa é uma das maiores ironias da ferramenta: extremamente poderosa e, às vezes, surpreendentemente teimosa nas coisas pequenas.

15. O momento em que você finalmente termina

Depois de horas tudo está alinhado. Legenda certa. Cards no lugar. Mapa não está mais possuído. Cores funcionando. Números corretos. Linhas alinhadas. Gráfico bonito.

Você olha, respira e pensa: “agora sim”.

Alguém fala: “ah, só precisa colocar mais um KPI aqui”.

Ctrl+Z.

O Gandhi morreu. O Mike Tyson venceu.

No fim das contas

Não estou aqui pra falar mal do Power BI. Muito pelo contrário. É justamente porque a ferramenta é importante que essas frustrações ficam tão evidentes.

Para quem trabalha com DataViz e UX, a interface da ferramenta também faz parte da experiência. Quando você passa o dia construindo interfaces para outras pessoas, é inevitável olhar para a que está usando e pensar: “isso aqui poderia ser um pouco mais fácil”.

Dá pra fazer um painel bonito, elegante e sofisticado no Power BI. Mas tem um requisito não documentado: você precisa de uma calma violenta.

Porque fazer um dashboard bom exige conhecimento de dados, visualização, hierarquia, design, contexto e negócio. E, aparentemente, um pouco de treinamento budista só pra conseguir mover um mapa.

No final, talvez o verdadeiro DataViz não sejam os dashboards que a gente fez. São as vezes em que quase jogamos o notebook pela janela… e continuamos trabalhando.

Não clique em compartilhe

É exatamente isso que o algoritmo espera.

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