O Painel que Ninguém Olha: por que tantos dashboards falham
Informação demais faz as pessoas enxergarem de menos.
Existe uma crença curiosa no universo de Business Intelligence, UX Design e visualização de dados: quanto mais informações um dashboard possui, melhor ele será. Na prática, acontece exatamente o contrário. Quando tudo parece importante, nada realmente chama atenção.
Imagine comprar um carro novo.
Você entra, liga a chave e, no lugar de um painel simples mostrando velocidade, combustível, temperatura e alguns alertas essenciais, encontra centenas de indicadores piscando. Pressão disso, temperatura daquilo, gráficos, números, siglas e informações que você nunca viu na vida.
Provavelmente você pensaria que aquele carro foi projetado por alguém que nunca dirigiu.
É exatamente essa sensação que muitos usuários têm quando abrem um dashboard.
Nem todo mundo precisa pilotar um avião
Quando construo um dashboard, quase sempre faço uma comparação simples: esse usuário é um motorista ou um piloto?
O motorista precisa de poucas informações para seguir viagem com segurança. O piloto, por outro lado, depende de dezenas de indicadores porque está controlando uma máquina muito mais complexa.
O problema é que muita gente insiste em entregar um painel de avião para quem só queria dirigir um carro.
Um bom dashboard não impressiona pela quantidade de gráficos. Ele facilita a leitura, reduz o esforço cognitivo e apresenta apenas as informações necessárias para a tomada de decisão.
Como um dashboard vira um depósito de gráficos
Durante a construção de um painel, conversamos com diversas áreas da empresa. Cada equipe traz seus indicadores, suas métricas, seus problemas e suas prioridades.
No começo parece uma ótima ideia atender todo mundo.
Mais um gráfico aqui.
Mais um filtro ali.
Mais um cartão porque alguém pediu.
Quando percebemos, o dashboard está cheio de informações, mas vazio de respostas.
Esse é um dos erros mais comuns em projetos de Business Intelligence e Power BI: transformar um painel de indicadores em um catálogo de tudo o que existe no banco de dados.
O usuário só procura aquilo que faz sentido para ele
Em grandes instituições isso acontece o tempo todo. Um único dashboard reúne informações de diversas áreas da empresa, mas cada pessoa consegue interpretar apenas aquilo que faz parte do seu trabalho.
Todo o restante ocupa espaço, compete pela atenção e aumenta a dificuldade de encontrar aquilo que realmente importa.
Mais informação nem sempre significa mais conhecimento. Muitas vezes significa apenas mais distração.
Por que ninguém olha o painel?
Chegamos, finalmente, ao título deste artigo.
Por que ninguém olha o painel?
Porque, na maioria das vezes, ele não conversa com quem está usando.
Existem dashboards com dados desatualizados, indicadores que mudam uma vez por ano, gráficos que nunca influenciaram uma decisão, métricas inconsistentes e informações que continuam ali apenas porque "sempre estiveram".
O dashboard permanece aberto na televisão da empresa ou fixado em uma aba do navegador.
Mas deixa de fazer parte da rotina.
Ele deixa de ser uma ferramenta.
Vira decoração.
A pergunta mais importante de um dashboard
Gosto muito do universo de UX, UI e visualização de dados. Tenho orgulho de alguns painéis que ajudei a construir e, olhando para trás, também vejo outros que hoje faria completamente diferentes.
Com o tempo aprendi que a pergunta mais importante nunca foi:
"Qual gráfico vamos colocar?"
A pergunta certa sempre foi:
"Por que esse gráfico precisa existir?"
Se ele não ajuda alguém a entender um problema, acompanhar um indicador, tomar uma decisão ou agir mais rápido, talvez ele nem devesse estar ali.
Menos gráficos. Mais decisões.
No fim das contas, um bom dashboard não é aquele que mostra mais gráficos, mais indicadores ou mais filtros.
É aquele que entrega exatamente a informação necessária, no momento certo e para a pessoa certa.
Assim como um bom painel de carro.
Nem mais.
Nem menos.